Eu sou cult, beim
Estação das chuvas em Brasília, era uma noite qualquer de terça-feira. Após um expediente de trabalho espichado já não havia mais tempo de ir pra universidade e assistir a primeira aula. Decidi em meu coração fazer algo que valesse a pena não ir pra universidade e perder também o meu segundo horário sem peso na consciência.
Estava eu, feliz e contente, passando próximo ao Teatro Nacional quando me surgiu a fantástica ideia: apresentação da orquestra sinfônica de Brasília (de grátis). Me senti "top cult ever" só de me imaginar repetindo para dois professores as mesmas explicações sobre minha falta "tive que assistir a apresentação da Orquestra Sinfônica no Teatro Nacional de Brasília... Tsá!"
Já dentro do Teatro, não foi difícil achar um bom lugar sob o ar condicionado pois, afinal de contas, mesmo sendo cult o brasileiro não tem o bom hábito da pontualidade. Ali, sentado num lugar de privilegiada visão do palco e dos que entravam para compor a plateia, pude ver o quanto esta era, digamos, peculiar: idosos, PNEs, pessoas que aparentavam ser músicos, muitos músicos de igreja, pessoas estranhas, casais e single gays. Era uma plateia tão peculiar e tão heterogênea que não me senti mais um esquisitamente normal entre tantos. Normal sim, cult também.
Para mim, uma agradável surpresa (não havia pegado a programação da noite na recepção) a orquestra seria regida por uma mulher. Demorou um bom tempo até que todos os músicos estivessem a postos e a apresentação começou com um solo de violoncelo; uma apresentação belíssima, que grande e cult noite!
Estava apreciando a apresentação e, a partir da segunda música, notei que um dos componentes da orquestra que estava sentado bem ao fundo estava ocioso. A julga por sua aparência einsteiniana e pelo toar da orquestra passei a imaginar o que faria aquele músico. Na minha cabeça firmaram duas possibilidades: ou ele um tenor e com seu solo impactante iria derrubar até mesmo a maestrina ou então ele faria um salto triplo carpado musical com seu instrumento que não sabia qual era.
Passaram-se várias músicas e o músico do fundão ainda estava lá quietinho, sentadinho. Quando a orquestra começou a executar a música mais retumbante eis que o músico se levantou. Meu coração já estava palpitante com a extasiante música e isso que gerou ainda mais expectativa. Passei a observar atentamente qual seria a performance do músico: ele virou a página da partitura e, no ponto alto da música ele fez soar um triângulo! Não que alguém estivesse observando mas não fiz questão de esconder minha cara de decepção. O tilintintar do triângulo me soou muito atravessado a música, como alguém que diz "tá na hora negada, o rango tá servido debaixo da obra, quem demorar fica sem!!!"
Por um momento me senti um peixe fora d'água porque a plateia aplaudiu efusivamente uma música que, para mim, foi estragada com a performance do triângulo. Não tive outra alternativa que não aplaudir já que ninguém mais faria psiu para aqueles que se manifestasse porque essa era a última música. Acendidas as luzes tive que me recompor e apagar a cara de decepção. Por alguns segundos me questionei quando ao meu conhecimento e gosto por música erudita. Parei, respirei fundo e repeti para mim mesmo: eu sou um cara cult, mesmo que estive vacilante por um instante.

2 pitacos:
O que mais posso fazer a não ser...rir! hahahahahahahahaha
Ow, tem o concerto de gala do Coro Sinfônico da UnB dias 2 e 3 no Villa-Lobos. Vamos?
Cara, pra você ver como é importante que cada um faça seu papel. Imagina se o véio Eistein não está lá: quem iria tilintar o triângulo?
E para os apreciadores "cult" de fato, que iriam notar a falta de bendito? Decepção muito maior!
É preciso fazer a sua parte, nem que seja só um tilintar, mas que seja bem feito!
Fora isso, não mata mais a aula não, fio! :-)
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